sexta-feira, 26 de outubro de 2007

As Andanças da Mortalha (excerto VI)

O Amor está vivo! Está vivo nas preces mais estranhas, nos encontros mais inusitados!

O Amor me leva a ter o melhor de todas as pessoas! De todos os frutos da Terra!

O Amor guia meus passos, faz de meus caminhos runas iniciáticas, que compreendo quando se definem, no último traço!

O Amor desenha meu corpo na vida e desenha a vida em meu corpo!

O Amor não me deixa desviar-me do caminho, e me impede de ter uma vida normal, empurrando-me para os cumes com uma força invencível!

O Amor me tira o sono e me mata a fome, faz meu corpo sangrar em sonhos e desviar seu olhar para alhures!

O Amor destila-se em mim como um veneno ofídico, quintessência das maiores dores e dos maiores prazeres!

O Amor ferve em minhas veias e ilumina meu sangue, provocando visões, mantendo-me vigilante além da vigília!

O Amor e a minha Morte caminham lado a lado, se desafiando mútuamente! Desse jogo amoroso surge a lava incandescente de minha vida!

O Amor é a febre original onde nossos corpos estavam na passagem entre os mundos!

O Amor nunca me abandona, e quando desejo outro corpo é o Amor que deseja em mim!

O Amor me faz querer todos os corpos que são possíveis num só corpo!

O Amor me faz penetrar em outro corpo como a água, atravessá-lo por inteiro, estar no corpo-além-do-corpo!

O Amor faz do meu corpo uma ferida da luz, eternamente aberta, eternamente sangrando!

O Amor me faz buscar meu corpo nas estrelas!

O Amor me nutre com a maior de todas as forças, tornando todo o meu ser forte, não só meu corpo!

O Amor me segue e em raízes profundas e ocultas me alcança!

O Amor me transforma e me preenche com seus dias e noites!

O Amor me reconduz a uma vida benigna, um caminho digno que termina numa Boa Morte!

O Amor me ama além da Morte!

O Amor me chama para fundir-me a seus sonhos, seus gestos de poder, suas miríades de infinitas existências, e eu não desejo nada mais que isso!

O Amor me puxa para si em danças que se renovam a cada dia e eu me atrevo a dançar com ele!

O Amor interfere nos meus planos e eu dou a ele cada vez mais autoridade sobre mim!

O Amor toca em mim sua canção de febre e meus braços ardem, meus tornozelos tremem e minhas mãos dançam na frenética dança do Devorador!

O Amor grita para mim de dentro de outro ser e me pede para hipnotizá-lo!

O Amor segue seu curso inexorável e eu me ponho a aprender tudo com ele!

O Amor me despe das lápides do mundo e eu sigo com ele para o Corpo Infinito!

O Amor me sonha co seus cílios dourados e prateados e negros, e a minha vida encontra infinitos pontos onde o tempo não vai!

O Amor me vive com seu magnético devir e eu vejo as cores e as formas que me formam me encontrarem no caminho, na Rosa dos Esconderijos!

O Amor me permite ser sempre livre, sempre belo e sempre saber querer!

O Amor me arma para as batalhas, me torna um conquistador de reinos, um avatar de sonhos imemoriais, um ritmo excepcionalmente forte que conduz outros ritmos pelo mar dos ruídos!

O Amor me dimensiona de tal maneira que sinto-me a trocar de vida a cada instante!

O Amor me reveste da sua máscara, que reverbera nos arcanos profundos da trovoada!

O Amor me sussurra palavras ouvidas por seres perfeitos onde o mundo tem seu covil mais íntimo!

O Amor se manifesta em mim como imagem e semelhança de mim mesmo, de meu corpo, de meus sonhos, de minha mais exuberante satisfação!

O Amor entrega-se a mim como um papagaio kazar se entrega a recitações do passado que ninguém compreende mais!

O Amor me enlouquece, e no seu murmúrio o real e o irreal entram em uníssono perfeito!

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