segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O Livro da Fome

Dizem os cristãos que Deus é amor, que o amor provém de Deus. Mesmo se eu fôsse cristão eu não pensaria assim. O amor provém do Diabo. Deus é tudo aquilo que nos afasta do amor, tudo aquilo que nos dá razão pura e simples, que nos liberta do tormento da existência no mundo dos sentimentos.

É fácil entender como os cristãos cometeram esse erro. Eles inventaram um conceito para o amor, um conceito para substituir o amor. Ágape, o amor de Deus, o amor sem carne, o amor sem interesse. Algo que não existe, mas que a ilusão é bem capaz de criar, e algo benigno para os que são capazes de acreditar em ilusões. Infelizmente, se eu acreditasse no cristianismo, eu pertenceria ao Diabo. Não por escolha. Mas porque não tenho imunidade contra o amor. Ele vem e faz de mim o que bem entende, me mói, me destrói, me separa de mim mesmo e de tudo que é saudável. Se eu pudesse escolher, viveria para sempre sem amor... Nunca o teria sentido, nunca o teria tido, nunca teria pertencido a ele...

Dizem os pagãos que não há amor sem morte, não há prazer sem sacrifício. A vida é uma dura montanha russa de prazer e de dor, e temos que afirmar a vida. Sim, é muito mais fácil ser cristão, muito mais confortável para a consciência. Mas eu não sou cristão. Não acredito nem em Deus nem no Diabo, a não ser como metáforas para alguma imprecisa poesia antiga. Já a vida... a dor, o prazer, a fome... quem está livre destas coisas?

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

As Andanças da Mortalha (excerto VI)

O Amor está vivo! Está vivo nas preces mais estranhas, nos encontros mais inusitados!

O Amor me leva a ter o melhor de todas as pessoas! De todos os frutos da Terra!

O Amor guia meus passos, faz de meus caminhos runas iniciáticas, que compreendo quando se definem, no último traço!

O Amor desenha meu corpo na vida e desenha a vida em meu corpo!

O Amor não me deixa desviar-me do caminho, e me impede de ter uma vida normal, empurrando-me para os cumes com uma força invencível!

O Amor me tira o sono e me mata a fome, faz meu corpo sangrar em sonhos e desviar seu olhar para alhures!

O Amor destila-se em mim como um veneno ofídico, quintessência das maiores dores e dos maiores prazeres!

O Amor ferve em minhas veias e ilumina meu sangue, provocando visões, mantendo-me vigilante além da vigília!

O Amor e a minha Morte caminham lado a lado, se desafiando mútuamente! Desse jogo amoroso surge a lava incandescente de minha vida!

O Amor é a febre original onde nossos corpos estavam na passagem entre os mundos!

O Amor nunca me abandona, e quando desejo outro corpo é o Amor que deseja em mim!

O Amor me faz querer todos os corpos que são possíveis num só corpo!

O Amor me faz penetrar em outro corpo como a água, atravessá-lo por inteiro, estar no corpo-além-do-corpo!

O Amor faz do meu corpo uma ferida da luz, eternamente aberta, eternamente sangrando!

O Amor me faz buscar meu corpo nas estrelas!

O Amor me nutre com a maior de todas as forças, tornando todo o meu ser forte, não só meu corpo!

O Amor me segue e em raízes profundas e ocultas me alcança!

O Amor me transforma e me preenche com seus dias e noites!

O Amor me reconduz a uma vida benigna, um caminho digno que termina numa Boa Morte!

O Amor me ama além da Morte!

O Amor me chama para fundir-me a seus sonhos, seus gestos de poder, suas miríades de infinitas existências, e eu não desejo nada mais que isso!

O Amor me puxa para si em danças que se renovam a cada dia e eu me atrevo a dançar com ele!

O Amor interfere nos meus planos e eu dou a ele cada vez mais autoridade sobre mim!

O Amor toca em mim sua canção de febre e meus braços ardem, meus tornozelos tremem e minhas mãos dançam na frenética dança do Devorador!

O Amor grita para mim de dentro de outro ser e me pede para hipnotizá-lo!

O Amor segue seu curso inexorável e eu me ponho a aprender tudo com ele!

O Amor me despe das lápides do mundo e eu sigo com ele para o Corpo Infinito!

O Amor me sonha co seus cílios dourados e prateados e negros, e a minha vida encontra infinitos pontos onde o tempo não vai!

O Amor me vive com seu magnético devir e eu vejo as cores e as formas que me formam me encontrarem no caminho, na Rosa dos Esconderijos!

O Amor me permite ser sempre livre, sempre belo e sempre saber querer!

O Amor me arma para as batalhas, me torna um conquistador de reinos, um avatar de sonhos imemoriais, um ritmo excepcionalmente forte que conduz outros ritmos pelo mar dos ruídos!

O Amor me dimensiona de tal maneira que sinto-me a trocar de vida a cada instante!

O Amor me reveste da sua máscara, que reverbera nos arcanos profundos da trovoada!

O Amor me sussurra palavras ouvidas por seres perfeitos onde o mundo tem seu covil mais íntimo!

O Amor se manifesta em mim como imagem e semelhança de mim mesmo, de meu corpo, de meus sonhos, de minha mais exuberante satisfação!

O Amor entrega-se a mim como um papagaio kazar se entrega a recitações do passado que ninguém compreende mais!

O Amor me enlouquece, e no seu murmúrio o real e o irreal entram em uníssono perfeito!

Lena Marca e Assinala sua Amante

“Por que você quer sair e mudar o mundo? Meu amor não é o bastante para você?” disse ela das falas balbuciantes com o lábio superior de chocolate e o lábio inferior de morango. “Se você soubesse das coisas que quero fazer com você se esqueceria do mundo e de todos os seus dervixes se contorcendo e da fome. E se você se abandonasse a mim por só um momento para que eu pudesse te remodelar com meus dedos, eu construiria asas em cada pequeno território de tua pele. Eu conheço cada ramificação e sei fazer florescer e frutificar. Dá-me tua pele e farei para ti um pomar. Eu conheço correntezas ocultas que vão dos mamilos ao coração, do coração à garganta e que encherão os teus olhos de pétalas. Conheço os aromas corretos para pintar teus lábios em cada lua, em cada dia da semana. Eu quero pintar teu corpo inteiro como um brinquedo dos deuses. Quero curar teus desejos insatisfeitos, quero penetrar em teu corpo com a luz do meu olhar. Quero te transformar em todas as deusas enquanto me transformo em todos os deuses. O vento irá uivar e as pásirão cavar e escavar cada partícula de mente escondida em tua pele, sob tua pele. O pincel da mais doce carícia que dança acompanhando as estrelas de teus doces ossinhos trará a canção mística de tua criança, que se lembra dos jeitos de sorrir na chuva. Pense na tinta de inúmeras flores esquisitas secando na tua pele, do toque doce e suave dos unguentos azuis-aquáticos sobre tuas serpentes, mel sobre tuas pálpebras, com pétalas lilases de asas-de-fada, negro jenipapo em teu rosto, e o abraço fino e liso que nos conduz ao vale onde as sombras cantam doces canções. Pense no pincel de meus dedos te devolvendo todos os ventos, as brisas, a doce awen d caldeirão, nos envolvendo em um dia de segredos sem culpa. Brincadeiras infantis de riso e delicada malícia. Quero te dar o própolis que é feito com o mel das abelhas virgens.”

Talaith

Cidades reluzentes sob o espectro do Sol. Uma colcha de linhas retas que com sua violência de agulhas costura o corpo da terra, que a terra exibe como uma roupa tatuada. Dentro das linhas cada partícula é uma possível rota de fuga. E o sangue esmagado e a gaivota.

Estas linhas de escrita que se fazem no espaço hermético-erótico entre a minha pequena dor e o insuportável e aterrador êxtase cósmico de amor e morte servem apenas para propagar-me com segurança no tempo público. São diademas líricos que coroam deusas evanescentes, corpos dispersos pela ganância cronológica, e isso me pede uma reatualização de meu espaço íntimo, exposto pela putrefação social ao ar impuro.

Um espaço íntimo impulsionado por uma imagem intensa. Preciso de um incêndio lento agora. Eternizar o momento em que a mariposa se propaga em seu novo mundo Tudo muito devagar... e talvez a cidade seja capaz de ver que por amor invadimos as casas dos que não têm casas e com amor somos recebidos.

Cidades nojentas e empoeiradas onde rastejamos, cheios de luz. Um exército de almas. Larvas. Talvez a cidade seja o sacrifício necessário para que o novo ser nasça, para que venham os novos sons, os novos sopros. Como forças maiores, que a superfície que resiste por algum tempo sempre breve o suficiente, deixa eclodir.

Diademas reluzentes que rasgam-nos a pele.

Croio

Eu não sou uma coisa que flutua. Rastejo muito abaixo destes pensamentos que são como correnteza fria que me acalma. Conheço as pedras cheias de limo, a barriga interior. A eletricidade, o sonho do fundo do rio – docemente passeia por mim um desejo de sucumbir tão confortável e leve, todos os anjos das águas cantando canções serenas, me levando em uma carroça de escamas de ouro, longe das lágrimas, debaixo dum croio...

Definitivamente não desejo ser um animal que voa. Adoro o peso, o retorno ao chão escuro, o encontro de caminhos trançados como runas, enquanto passeio, tonto, por toda esta paixão, todo esse desespero.

Não me desespero por medo, mas por prazer. Poesia que alimenta o veneno.

Desejo este desespero, talvez sem ele eu não conseguiria viver. Talvez sem ele eu seria como essas pessoas que sempre atribuem toda culpa a si mesmas, todos os pesos do mundo sobre seus próprios ombros para terem o orgulho dos gestos martirizados dos ícones. Não desejo a linguagem comum, o inesperado é que me fascina. O que não deveria estar ali é que me convence de sua grandeza. O Nada-Casual.

Por isso amo este mundo e não todos os paraísos etéreos onde deveríamos estar tocando bombarda com os anjos. É como estar sempre doente a vida, sempre com alguma febre, e se eu tropeço no destino como um bêbado o faria, é provável que eu deva ser um bêbado.

Embriagado da força das pedras.

Uma Morte Generosa

Enquanto me sento e ouço os mistérios sem significado algum para mim em um templo construído por mãos humanas onde só entro porque minha Dama das Águas resplandesce sobre o altar em uma imagem carnal, o mundo lá fora prossegue com seus frutos da estação como um tarado. Há fogo por todos os lados e as labaredas consomem todos os traços de meu antigo ser.

Eu não amo a humanidade, amo indivíduos. Não há nada que eu despreze mais que um coro de vozes que diz: “ROGAI POR NÓS” e no entanto aqui estou eu. As pessoas são corpos que o amor atravessa e no delírio obscuro da igreja as intensidades carnais se tornam mais fortes. Os sacrifícios das vozes cobrem o silêncio de rendas brancas, debaixo delas porém, o sangue ainda é vermelho.

O sangue ainda é vermelho nas veias. Se os pensamentos da mente fazem uma mortalha evanescente ao redor do corpo, assustando o ente que vive na torre, o próprio corpo é que responde com seu aterrorizante amor, ameaçando a própria morte de que ele é feito. Esse pensamento depende de veios. Sangue arterial e sangue venal. Inspiração e expiração. Não pares de opostos. Sinônimos sincrônicos e simétricos. Transfiguração e expiação.

Às vezes da ponta da caneta brota um excitante instrumento de percussão. E as letras que se inscrevem cada qual tem seu ritmo único. Penso que quem tem seu ritmo tem tudo. Uma larga parcela de si mesmo dividida e uma morte generosa.

A Luz é generosa!

3:37

Como poderia não vigiar para ouvir o sabiá da madrugada? Sua árvore é um extraordinário local de orações! Me atrai e esculpe em mim um coração monumental em pedra sólida, cheio de propósito, cheio de ninguém.

O silêncio com ele se torna óbvio. Tatua em meu peito um síbolo dos céus.

Não posso viver sem o sabiá da madrugada. Quando ele não está presente eu o invento em mim. Ele é água que solta minhas amarras. Eu afundo e serpenteio, como um cometa que fecunda a poeira das estrelas. Eu fui a serpente engolida pelo tubarão, que se tornou constelação no céu de sua barriga. Eu sou o cântico do sabiá da madrugada.